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“Temos obrigação de descobrir a alegria de fazer do nosso jeito”

O médico José Camargo mais uma vez encantou a plateia que prestigiou sua palestra “A humanização que qualifica”, na Associação Comercial de Porto Alegre, ao relatar histórias de forma extremamente sensível, com um desfile de personagens que passaram pelo seu cotidiano e, principalmente, seu consultório. O azedo, o azarado profissional, a faxineira Liduína, o paciente que roubou uma caixa de pêssego para agradecer o atendimento e tantos outros.  

Em relação ao azedo, ele entende que deveria ser transferido para o almoxarifado e não atender o público. Ele tem a frustração de fazer algo obrigado. Já o azarado profissional treina, se qualifica e não decola. Não tem afeto. “A seleção de trabalho mais justa é pelo afeto”, acredita.

Camargo, que falou nesta terça-feira, 10/4, na reunião-almoço Menu Porto Alegre, por trás desses personagens está sempre uma má escolha profissional. “O modelo de formação brasileiro é errado porque escolhemos a profissão jovens demais, no momento da vida que não sabemos de nada.”

Ele entende que o profissional da área de ciências humanas, por exemplo, deve gostar de gente. “Se não gosta, saia da área de humanas, pois não tem como aprender a gostar de gente.”

É muito comum, conforme ele, o médico chegar ao lado da cama e não saber o nome do paciente e este não lembra o nome do profissional.  Neste momento, revelou mais um personagem: “Tinha o menino que foi fazer uma ecografia abdominal. O médico entrou na sala e começou a manusear o equipamento na sua barriga sem falar nada quando o menino disse: Oi, meu nome é Artur.

Para ele, é necessário o mínimo de solenidade no momento de apresentação entre as pessoas. A profissão de médico mistura sedução e conquista do paciente. “A gratidão se dilui no tempo, mas a desconsideração é lembrada por toda a vida. Ignorar o sofrimento é uma grande humilhação.”

E vem mais uma lembrança de um paciente: “Atendi um menino de 11 anos que teve morte encefálica. Naquele dia deveria atender ainda nove pacientes. Chamei-os numa sala e disse que precisava ir embora para chorar um pouco e contei o caso do menino. Houve uma comoção na sala e todos aceitaram voltar no dia seguinte.”

O médico que trabalha com prazer recebe a gratidão dos pacientes, revela Camargo. Quanto mais agradecimentos melhor a qualidade do atendimento.  Alguns agradecimentos ficaram em sua memória:  “Recebi uma caixa de pêssego de um excelente pintor de paredes, mas também conhecido como ladrão. Apertei um pouco e ele me contou que tinha roubado de uma banca da Praça 15.  O repreendi, mas alguém dar presente correndo o risco de ser preso tem seu valor.”

Outro agradecimento lembrado por Camargo foi de um vendedor de frutas nos semáforos, que disse que era especialista em bandidagem e ofereceu seus serviços. “O senhor só precisa me dizer o tamanho do susto.”

No final da palestra, Camargo contou um episódio que ele assistiu em vídeo: Um repórter jovem perguntou ao músico canadense já falecido Leonard Cohen como ele tinha composto seu maior sucesso Hallelujah. Ele respondeu: só lembro que eu estava muito feliz. Camargo entende que só neste estágio podemos fazer coisas boas. “Temos obrigação de descobrir a alegria de fazer do nosso jeito. Só assim iremos construir nossas catedrais.”